O primeiro debate do segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado no domingo (18), na Band, foi marcado por acusações pessoais e confrontos sobre economia, segurança pública e corrupção. Para além do encontro televisivo, outras declarações e controvérsias recentes envolvendo o presidente também passaram a integrar a discussão política na reta final da eleição.
Entre os episódios estão a referência de Lula a Flávio como “malandro carioca”, o comentário sobre Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha adversária, e a declaração dirigida ao governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho Azevedo (Republicanos), para que ficasse “quietinho” durante o segundo turno. Também voltou a circular uma fala de 2023 sobre pessoas com transtornos mentais, enquanto o caso da deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG) envolve publicações que estão no centro de questionamentos e investigações eleitorais.
“Malandro carioca” e a referência a Dani Marques
Durante o debate, Lula chamou Flávio Bolsonaro de “malandro carioca”, expressão que provocou reação do senador. A crítica do candidato do PL foi a de que a fala recorria a um estereótipo regional que poderia atingir os próprios moradores do Rio de Janeiro.
Outro momento controverso ocorreu quando o presidente se referiu a Daniella Marques como “tua mulher da economia”, ao questionar a proposta econômica do adversário. Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal, respondeu publicamente: “A mulher da economia tem nome: sou Dani Marques e tenho muito orgulho da minha trajetória”.
A fala foi criticada por aliados de Flávio, que a consideraram machista e desrespeitosa com a profissional. O episódio reforçou o debate sobre os limites dos ataques pessoais em uma disputa presidencial.
O recado de Lula ao governador eleito de Minas Gerais
Na sexta-feira (16), durante uma agenda em Juiz de Fora (MG), Lula também se dirigiu publicamente a Cleitinho Azevedo, eleito governador de Minas Gerais. Ao comentar a relação com o futuro governo estadual, o presidente afirmou que Cleitinho não precisava apoiá-lo, mas “só tem que ficar quietinho”.
Na mesma ocasião, Lula associou a continuidade de investimentos federais no estado à sua própria reeleição e afirmou que, caso perdesse, as obras em Minas poderiam ser paralisadas. A declaração foi interpretada por críticos como uma forma de pressionar politicamente o governador eleito, que declarou apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno.
O episódio levantou questionamentos sobre a relação entre o governo federal e os estados governados por adversários políticos. A liberação de recursos públicos e a execução de obras devem seguir critérios administrativos e legais, sem depender de apoio eleitoral ou alinhamento partidário.
A fala sobre “parafuso a mais ou a menos”
Outra declaração que voltou a circular nas redes sociais é uma fala de Lula feita em 2023, quando o presidente, ao abordar pessoas com transtornos mentais, utilizou a expressão “um parafuso a mais ou um parafuso a menos”.
A declaração recebeu críticas de representantes da causa das pessoas com deficiência, que consideraram a expressão inadequada e ofensiva. O episódio foi registrado em pronunciamento na Câmara Legislativa do Distrito Federal, em abril de 2023, após discurso parlamentar que cobrou uma retratação do presidente.
A controvérsia voltou ao debate político durante a campanha de 2026, especialmente em publicações que associam a fala à discussão sobre autismo. É importante, contudo, preservar o contexto original: o trecho citado tratava de transtornos mentais de forma geral, e não deve ser apresentado como se fosse uma declaração específica sobre todas as pessoas autistas.
Independentemente da intenção do discurso, a escolha das palavras importa. Pessoas com transtornos mentais e pessoas autistas não devem ser reduzidas a expressões depreciativas, sobretudo quando a fala parte de uma autoridade pública.
Ana Elisa e a controvérsia envolvendo religião
A deputada federal eleita Ana Elisa, do PT de Minas Gerais, também está no centro de duas controvérsias recentes nas redes sociais.
A primeira envolve publicações atribuídas a ela que afirmavam que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Em 14 de outubro, o Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais determinou a preservação das publicações e encaminhou o caso à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral Eleitoral para investigação de possíveis irregularidades na propaganda eleitoral.
Flávio nega defender a mudança. A controvérsia teve origem em um projeto de lei antigo, apresentado por outro parlamentar e posteriormente arquivado. A investigação não equivale a uma condenação, e Ana Elisa afirmou que o processo corre sob sigilo e que se manifestará quando tiver acesso aos autos.
Outro episódio envolve uma captura de tela divulgada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), atribuída a Ana Elisa, na qual ela supostamente pediria o fechamento de igrejas. Uma checagem do Projeto Comprova, publicada pelo UOL, informou que não foi possível verificar a autenticidade daquela publicação específica. A assessoria da parlamentar negou sua autoria.
A mesma apuração encontrou outras publicações antigas de Ana Elisa, feitas quando ela ainda era menor de idade. A deputada reconheceu essas postagens, pediu desculpas a quem se sentiu ofendido e afirmou que não compartilha mais aquelas opiniões. Portanto, os conteúdos precisam ser tratados de forma distinta: uma captura não verificada não pode ser apresentada como autêntica, enquanto as publicações antigas reconhecidas pela própria parlamentar têm outro status.
Um debate que exige mais do que ataques
No confronto da Band, Flávio Bolsonaro procurou concentrar parte de suas críticas no custo de vida, no endividamento das famílias e nos gastos públicos. Lula defendeu os resultados de suas administrações e questionou o adversário sobre suspeitas e relações políticas. O encontro, entretanto, também foi marcado por provocações e acusações dos dois lados.
Os episódios que cercam a campanha mostram como declarações de candidatos e integrantes de seus grupos políticos podem ultrapassar o campo das propostas e atingir temas sensíveis, como identidade regional, respeito às mulheres, inclusão das pessoas com deficiência e liberdade religiosa.
A cobrança por responsabilidade deve valer para todos os lados. Declarações públicas podem e devem ser criticadas, mas acusações precisam ser verificadas, e investigações não devem ser tratadas como condenações antecipadas.
Na reta final da eleição, o eleitor tem diante de si duas candidaturas com projetos distintos e um ambiente de forte polarização. Mais do que frases de efeito e ataques pessoais, cabe avaliar as propostas, a conduta dos candidatos e a capacidade de cada um de governar respeitando os cidadãos, inclusive aqueles que não compartilham de suas posições políticas.





